Semana de Combate à LGBTfobia

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) o distanciamento social é a única forma de achatar a curva de contaminação da COVID-19 e, assim, não sobrecarregar o SUS e o sistema privado de saúde. Por outro lado, o impacto na saúde mental das pessoas em isolamento é evidente. Na semana do combate a LGBTfobia, o SINTUFEJUF entrevistou Yago Pádua, psicólogo clínico e pós-graduando em Relações de Gênero e Sexualidades pela UFJF, para trazer reflexões e dar dicas de como se manter saudável e como ajudar a população LGBTTQIA+ neste momento de quarentena.

Yago, como você vê essas as dificuldades do período de quarentena e o grande desafio de manter o isolamento para a população LGBTTQIA+?

Sabemos que a pandemia causada pelo COVID-19 afeta e exige de todas e todos, enquanto coletivo, cuidados com a higienização e distanciamento social. Em tempos onde as medidas de isolamento ficam mais intensas, muito se tem discutido sobre os cuidados com a saúde mental. Crises de ansiedade, medo da morte, solidão e angústia são alguns dos fatores que mais aparecem por aí no decorrer da quarentena. Mesmo antes da pandemia, essa parte da população já lidava com esses fatores nocivos à saúde mental. Vulnerabilidades sociais e preconceitos vivenciados por muitas pessoas LGBTTQIA+ podem impactar suas possibilidades de se manter em quarentena.

Durante a quarentena, inúmeros LGBTTQIA+, mesmo aqueles que já superaram o processo de aceitação e “saíram do armário”, voltam a se deparar com o mesmo por precisarem retornar a casa de familiares por motivos variados, como o financeiro. Para muitos, voltar para a casa (seja dos pais, de familiares ou de até mesmo de colegas com que se divide a moradia) é voltar para o armário, porém, desta vez, compulsoriamente, sem a possibilidade de uma saída a curto prazo, afinal, para tantos LGBTTQIA+ a rua é o local onde se encontra refúgio, muitas vezes até acolhimento. Mais do que estar quarentenado dentro de um espaço físico como quase todos estão diante da pandemia, neste momento, muitos vivenciam novamente a angústia de estar quarentenado num lugar psíquico opressor e agressivo, que pode trazer consigo marcas antigas e dolorosas ou até mesmo retomar a convivência com agressores. Neste caso, a #FiqueEmCasa, amplamente divulgada pelos especialistas da saúde e sociedade pode não ser positiva ou possível.

Durante este cenário de quarentena, como podemos, na prática, desempenhar e intensificar nosso papel de combate à LGBTTQIAfobia? Diante de tanta vulnerabilidade, o que nos resta, então?

É fato que a quarentena tem apenas potencializado sofrimentos psíquicos que já existiam. A situação fica ainda um pouco mais delicada quando voltamos nossos olhares para a população trans, onde muitos e muitas tem como principal fonte de renda a prostituição. 

Neste momento estamos num cenário que poucos ou ninguém estava preparado, falta tudo, falta recursos financeiros, cirurgias estão desmarcadas, há dificuldades em procurar ajuda médica por conta das orientações à não exposição a possível contaminação, tudo isso agravado pela discriminação, intolerância e o fato de diversos centros de referências especializados à população estarem fechados. 

Neste delicado momento, nos resta parar e perceber aquilo que, na nossa história, se tornou inegociável para nós. Nos resta perceber a importância daqueles que estiveram ao nosso lado lá fora e reconhecer o que pode ser mudado dentro (de casa ou dentro de si). Diria que o fundamental é sustentar aquilo que nos permite fazer laços neste momento. 

Cuidar dos nossos LGBTTQIA+, sejam eles desconhecidos, colegas, amigos ou familiares, buscando e compartilhando as ações dos nossos coletivos, repassando trabalhos possíveis e seguros para os trabalhadores informais, entrando em contato e fazendo ligações aos amigos LGBTTQIA+ (em especial os mais velhos), cuidando daquelas e daqueles em situações de maior vulnerabilidade ou até mesmo compartilhando aquela conta de um serviço de stream que você tenha com algum amigo que não tem condições de ter acesso no momento. Por fim, se as coisas ficarem difíceis, solitárias ou violentas demais, procurar ajuda profissional.

Há alguma outra hashtag que vale a pena levantar através das redes sociais na semana de combate à LGBTTQIAfobia?

Talvez, mais do que a #FicaEmCasa e ficar em casa (para os que podem), possamos utilizar a #FiqueEmCausa nesse momento histórico de luta da população LGBTQIA+ e da população mundial.

Yago Pádua é Psicólogo Clínico (CRP 04/54335) e Pós-graduando em Relações de Gêneroe Sexualidades – UFJF

Nessa semana, o SINTUFEJUF reafirma seu compromisso no enfrentando à LGBTfobia. Convocamos a todas e todos que busquem contato com amigos, familiares LGBTTQIA+, assim como entidades que prestam assistência a esta população, e os ajudem a enfrentarem esse período de pandemia.

#FicaEmCasa
#FicaEmCausa

SINTUFEJUF

SINTUFEJUF