Há mais de um ano na linha de frente do enfrentamento à pandemia, trabalhadores da saúde de hospitais universitários estão esgotados

Comemorado anualmente em 7 de abril, o Dia Mundial da Saúde foi criado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para conscientizar a população sobre diferentes fatores que afetam a saúde, seja ela física, mental ou social, três pilares fundamentais para o bem estar das pessoas.

Em todo o mundo, a pandemia provocada pela Covid-19 tem impactado, desde o início de 2020 negativamente a saúde mental de profissionais de saúde, especialmente daqueles que trabalham na linha de frente assistencial, e lidam todos os dias com a insegurança e o medo de se infectar e contaminar os familiares, além da falta de equipamentos de proteção individual e a sobrecarga de trabalho. No Brasil, este esgotamento psicológico tem se agravado após um ano de crise sanitária, e com o número crescente de casos e óbitos, que já atingem mais de 333 mil vidas perdidas pelo novo coronavírus.

Diante disso, no mês de março deste ano a Fiocruz divulgou a pesquisa “Condições de Trabalho dos Profissionais de Saúde no Contexto da Covid-19” que analisa o impacto da pandemia entre esses trabalhadores. De acordo com os resultados, a pandemia alterou de modo significativo a vida de 95% dos entrevistados, cerca de 50% admitiram excesso de trabalho, com jornadas para além das 40 horas semanais, e 45% afirmaram necessitar de mais de um emprego para sobreviver. Ainda conforme a pesquisa, mais de 40% dos profissionais não se sentem protegidos devido à falta, escassez e inadequação do uso de EPIs, muitas vezes improvisados, conforme revelaram 64% dos participantes da pesquisa.

A consequência desta tensão pela sobrecarga de trabalho somada à ausência de infraestrutura e recursos adequados para o atendimento seguro e correto ao paciente, “é a perturbação do sono (15,8%), irritabilidade/choro frequente/distúrbios em geral (13,6%), incapacidade de relaxar/estresse (11,7%), dificuldade de concentração ou pensamento lento (9,2%), perda de satisfação na carreira ou na vida/tristeza/apatia (9,1%), sensação negativa do futuro/pensamento negativo, suicida (8,3%) e alteração no apetite/alteração do peso (8,1%)”.

A realidade dentro dos hospitais universitários em Juiz de Fora não é diferente do restante do Brasil. Conforme relata a coordenadora do SINTUFEJUF e TAE do HU-UFJF, Isabel Cristina Nascimento, entre as principais reclamações das trabalhadoras e trabalhadores do HU está o descaso dos gestores com a qualidade de vida dos profissionais. “Eles (os trabalhadores) precisam de descanso. Parece que ninguém ouve, mas eles precisam de descanso, e de ter proximidade com a família”, lamenta. Em âmbito nacional, a falta de apoio institucional é citada em 60% dos entrevistados, conforme a Fiocruz, além disso, a falta de reconhecimento por parte da população também aflige os profissionais de saúde.

Isabel explica que desde o início da pandemia, a superintendência do HU-UFJF criou grupos de trabalho (GTs) formados por representantes do SINTUFEJUF e das demais entidades de classe do hospital. Os encontros são virtuais e tem como objetivo agilizar as soluções de problemas, dentro das unidades no enfrentamento da COVID 19, tais como as testagens de trabalhadores e a  vacinação. Ela acrescenta ainda que o não cumprimento da escala de trabalho humanizada, junto ao desrespeito aos recessos de feriados, deixam o trabalhador estressado e indignado. Com isso, o Sintufejuf tem realizado constantes intervenções  diante da direção do Hospital Universitário e a PROGEPE para minimizar o desgaste da categoria.

Segundo Isabel, a saúde mental é afetada pela ameaça real de serem também contaminados, embora as equipes estejam capacitadas para o trabalho e conheçam os procedimentos e protocolos de segurança. “Eles precisam do equipamento, luvas, aventais, EPI, são importantes para o atendimento ao paciente com Covid 19.  Isabel destaca que recentemente um dos profissionais de saúde do HU, que já havia tomado a primeira dose da vacina, precisou ser internado após apresentar quadro grave de Covid. Ela afirma, que este caso, despertou ainda mais insegurança entre  as trabalhadoras e os trabalhadores. Entretanto, vale destacar que uma pessoa somente será considerada imune a partir de duas ou três semanas após receber as duas doses recomendadas do mesmo imunizante, seja para quem tomou a CoronaVac ou a Oxford/AstraZeneca. Esse período é necessário para que a resposta imune seja gerada.

Deste modo, para Isabel, até que a sociedade seja imunizada em massa, a sensação de insegurança dentro dos hospitais somente será minimizada com a cooperação da população, evitando sair de casa quando não há necessidade, evitando encontros com pessoas que não fazem parte do núcleo de convívio diário, e adotando todas as medidas de proteção necessárias, como uso de máscara, álcool 70%, higiene das mãos e manter o distanciamento seguro. Entretanto, o negacionismo é um grande obstáculo. De acordo com a pesquisa da Fiocruz, 76% dos profissionais entrevistados relataram que os pacientes tinham algum tipo de crença referente às notícias falsas disseminadas, como por exemplo a adoção de medicamentos ineficazes para prevenção e tratamento. “Com a vacinação, é possível observar que a população idosa que na sua minoria já está em processo de imunização, não está mais preocupada com a contaminação, e a letalidade desse vírus. As pessoas que estão no atendimento dos pacientes, estão adoecidas, e isso é sério! Estão cansadas. Por isso é importante, todos colaborarem, pois a vacinação só tem eficácia comprovadamente, se grande parte da população for imunizada”, esclarece.

Conforme a técnico-administrativa do HU-UFJF Maristela Souza, o último ano alterou significativamente sua rotina, adotando novos cuidados com a limpeza e a restrição, e apesar de estar trabalhando, passou a evitar expor outras pessoas a maiores riscos. “Os exercícios físicos que pratico passaram a ser realizados em casa e a vida social foi abandonada nesse último ano. O medo de contaminar outras pessoas fez com que os contatos com familiares e amigos passassem a serem feitos por telefone ou vídeo chamadas”, conta.

Segundo ela, essa mudança de rotina também afetou o trabalho no hospital, uma vez que o medo de contaminação está sempre presente, obrigando a todas e todos a manterem os cuidados de proteção constantes, muito maiores do que aqueles que já eram praticados. A rotina do setor onde trabalha também mudou, muitas vezes se sentindo sobrecarregados com o excesso de trabalho, devido ao afastamento de colegas contaminados e com comorbidades. Principalmente nos últimos meses, os pacientes têm demandado mais cuidados por causa do atual cenário local, com o agravamento dos sintomas e consequências da doença. “Passamos a lidar com a ansiedade, o medo e insegurança dos pacientes e as nossas. Estamos trabalhando durante toda pandemia e é triste saber que, um ano depois, muitas pessoas não acreditam no vírus e em sua gravidade. Muito triste ver tantas mortes e que, em um ano de pandemia, as pessoas ainda não tomam medidas básicas como o uso da máscara, de álcool gel e o distanciamento”, lamenta.

Ela afirma ainda que as consequências físicas ficam claras com o cansaço nos plantões e as psicológicas com a insegurança que sempre os persegue. Além disso, o medo de contaminar outras pessoas é constante.

Para atender as trabalhadoras e trabalhadores, residentes, empregados e servidores, o hospital conta com o serviço de psicologia em parceria com a Psicologia Organizacional do HU. O objetivo é apoiar, acolher e cuidar, através de escuta qualificada online. Para agendar atendimento, basta encaminhar um e-mail para plantaopsihuufjf@gmail.com informar o dia e horário desejado, em caso de urgência o profissional é atendido pelo psicólogo de plantão do setor.

SINTUFEJUF

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