SINTUFEJUF em parceria com “Mães pela Liberdade” entrevista Dandara Felícia

29/01/2021

Com o objetivo de marcar a semana de Visibilidade Trans, cujo o dia é comemorado em 29 de janeiro, o SINTUFEJUF, em parceria com o coletivo “Mães pela Liberdade” entrevistou a primeira travesti diplomada na Câmara Municipal e a mulher preta mais bem votada nas últimas eleições, Dandara Felícia. Vereadora suplente (PSOL), ativista LGBTQIA+ e antirracista, sindicalista e trabalhadora do Hospital Universitário (HU – UFJF/EBSERH), Dandara respondeu sobre desrespeito ao nome social (pelo qual pessoas transexuais, travestis ou outros preferem ser chamadas) representatividade, lgbtqia+fobia, conservadorismo e os principais desafios enfrentados pela população LGBTQIA+. As pautas foram apresentadas pela representante do coletivo “Mães pela Liberdade”, formado em sua maioria por mães e famílias LGBTQIA+.

Mães pela Liberdade: É comum em espaços de atendimento ao público, como escolas e consultórios, a pessoa trans passar por humilhação e não ter seu nome social respeitado. Você já passou por isso? Como evitar essa exposição de forma a colocar a pessoa que está sendo atendida em situação de humilhação nesses espaços?

Dandara Felícia: Embora a gente tenha várias resoluções e decretos estaduais, municipais e federais, é muito difícil as pessoas respeitarem, uma vez que não existe uma proposta ativa, tanto dos empresários nas redes privadas quanto dos governos de implementar direitos à população lgbtqia+

É preciso cada vez mais denunciar e procurar o movimento social, o Centro de Referência LGBTQIA+ de Juiz de Fora para fazer a denúncia dos lugares que não respeitam o nome social. Eu nunca passei porque eu não tenho nome social, meu nome civil é retificado, então eu não tenho esse problema, mas já tive problema em um laboratório que não quis colocar os meus índices no feminino, não respeitando a minha identidade de gênero.

Eu acredito que com o aumento da retificação de nome e gênero no cartório e consequentemente dos documentos civis a gente vá diminuir bastante esse processo de não reconhecimento do nome social. Lembrando que o nome social é importante para as pessoas que não conseguem fazer a retificação de nome e gênero em cartório

Mães pela Liberdade:  Como garantir o reconhecimento do nome social?

Para garantir o uso do nome social, é necessário implementar na cidade a carteira de nome social antes da retificação de nome e gênero em cartório no rio são Paulo existia a carteira de identidade com o nome social isso é um processo público, a gente esperar que com a fundação da nova secretaria especial de direitos humanos a gente consiga avançar nas discussões para oferecer a carteira de nome social, vai ser um grande avanço para o respeito do nome social na cidade com a inclusão da carteira de nome social porque a pessoa não faz a retificação mas utiliza aquele documento que tem fé pública e pode ser usado em qualquer lugar

Mães pela Liberdade:  Em relação à representatividade, quantas pessoas trans hoje ocupam espaço público, mercado de trabalho? Como garantir o acesso nesses espaços?

Dandara Felícia: Hoje em dia 90% da população transvestigênere não está no mercado formal de trabalho, algumas estão na prostituição e outras ocupam outros trabalhos não formais. Somente 10% ocupam o mercado formal de trabalho e acredito que 1%, ou 2% no máximo ocupam o serviço público.

Isso ocorre muito em função da escolaridade, pessoas transvestigênere (travesti, transsexual e transgênero ) são expulsas da escola muito cedo, por conta do bullying, dos professores não respeitarem o nome social e por não deixarem o uso do banheiro de acordo com a identidade de gênero, então essas pessoas tem dificuldade de prosseguir na escola e abandonam muito cedo. Com isso, não conseguem acessar o mercado de trabalho. Eu acho que a gente precisa de uma campanha conjunta de profissionalização e acesso ao mercado de trabalho. Uma campanha de educação para que as pessoas consigam se manter na escola, principalmente adolescentes transvestigêneres. São três propostas que a gente precisa caminhar juntas, lembrando sempre que a gente precisa cada vez mais tirar o estigma da prostituição. Enquanto a gente estiver fazendo essa transição, várias pessoas transvestigênere vão estar ocupando este lugar no mercado de trabalho informal e com isso a gente estigmatiza e afasta mais ainda essas pessoas, colocando-as em maior situação de precariedade. Então a gente precisa pensar num processo da escola que aceite melhor o nome social e o uso do banheiro conforme a identidade de gênero e puna as pessoas que praticam bullying com as pessoas transgeneros, um processo de profissionalização e acesso ao ensino superior e um processo junto às empresas de aceitação das pessoas transvestigênere nesses locais de trabalho.

Mães pela Liberdade: O que representa ser a primeira travesti preta suplente da Câmara e a mulher preta mais bem votada nas últimas eleições?

Dandara Felícia:  Representa duas coisas, a primeira delas é que existe uma falta de representatividade, então as pessoas procuram representatividade numa figura travesti preta, para compensar uma câmara extremamente embranquecida, mesmo tendo 4 mulheres, são 4 mulheres brancas e mais um monte de homem branco, com um único homem negro que também não defende a causa antirracista Ao mesmo tempo mostra que juiz de fora tem um pedaço da população progressista, ainda assim, demonstra o quanto a gente tem uma cidade racista, porque não dá para hierarquizar as opressões. Fui a mulher preta mais votada, mas mesmo assim a gente ainda não tem pessoas pretas dentro da câmara municipal. Juiz de Fora é uma cidade extremamente racista e isso é uma coisa que a gente precisa trabalhar melhor, mas também dizer que essa representatividade, os 2067 votos recebidos, ser a primeira vereadora travesti diplomada na cidade e ser a mulher preta mais votada nas eleições diz muito da cidade que a gente ainda tem, conservadora racista e lgbtqia+fóbica.

Mães pela Liberdade:  O Brasil é um país com uma cultura e raça tão diversificada, porém ainda somos o primeiro país no ranking em lgbtqia+fobia. Como fazer valer os direitos da comunidade trans, o direito de viver, de ser livre, de ter saúde e respeito?

Dandara Felícia:  Não é culpa dos lgbtqia+ a lgbtqia+fobia, então eu acho que é um processo histórico-cultural de um país que é extremamente racista, extremamente machista e extremamente colonizado. A gente ainda tem um país em que a mulher negra é considerada propriedade do homem. É preciso cada vez mais denunciar, propor novas possibilidades faz com que a gente consiga avançar nesse propósito. Só a luta muda a vida!

Mães pela Liberdade: A parte “conservadora” de nossa sociedade, que se diz tão preocupada com suas crianças ainda não tem capacidade de viver em um país com tanta diversidade e exigem que seus filhos vivem numa “bolha social” que não condiz com a nossa realidade e assim continuam criando exterminadores de humanos. Excluir socialmente, bater ou matar uma mulher, uma pessoa negra ou uma pessoa lgbtqia+ é o caminho para uma sociedade melhor? É com esse tipo de atitude que não irão nascer mais pessoas desses grupos? Ou é mudando nossa forma de educar, pensar e agir?

Dandara Felícia: A educação é um ponto fundamental, mas a gente não pode ser essencialista a esse ponto. É preciso avançar no processo, porquê de que adianta você fazer uma educação melhor para as crianças se os pais ainda são pessoas extremamente transfóbicas ou lgbtqia+fobicas, racistas e machistas. É preciso uma mudança de atitude em nós, para que depois as crianças ou as próximas gerações já não vejam isso mais. Então não adianta só educar e mudar porque muito mais que educar na escola e dizer que não pode ser transfóbico, lgbtqia+fobico, racista, é necessário que nós sejamos antirracistas, antilgbtqia+fóbicos, antifascistas. Nós precisamos mudar as nossas atitudes. Você ainda vê uma dificuldade na ocupação dos lugares de poder e decisão por pessoas representativas, por mulheres trans, por mulheres pretas, então se a sociedade não muda primeiro, não adianta você morrer de educar as crianças porque as crianças nunca vão aprender, elas vão continuar exercendo atitudes que seus pais exercem

Mães pela Liberdade:  Quais os principais desafios enfrentados pela população LGBTQIA+ e quais políticas públicas são necessárias para acolher essa população?

Dandara Felícia: Nosso principal desafio é ocupar lugares de poder e decisão, onde a gente vai construir a hegemonia, a cultura, a educação. Eu sou a primeira travesti mestranda da UFJF, isso diz muito do lugar que a gente tem ainda, não de mim. É óbvio que eu estudei para estar ali, eu me esforcei, mas diz muito daquele lugar onde pessoas pretas, mulheres, mulheres trans, homens trans não ocupam lugar de poder e decisão. A cátedra (ocupação de professor) é um lugar de poder e decisão, a vereança (ocupação de vereador) é um lugar de poder e decisão, os cargos de direção são um lugar de poder e decisão A gente precisa avançar com a ocupação desses lugares a fim de que as pessoas percebam que nós podemos ocupar quaisquer lugares e temos capacidade para isso. Mas além disso tudo, pensar também que nós podemos construir as nossas realidade, parar de ter a nossa vida debatida e discutida por outras pessoas e começar nós mesmos a construirmos as nossas histórias e mostrar que é possível construir novas possibilidades.

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