
Após 120 dias de mobilização, as técnicas e os técnicos-administrativos em educação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) deliberaram pelo encerramento da greve durante assembleia realizada nesta sexta-feira (19). A decisão foi tomada diante do agravamento do cenário judicial envolvendo o movimento e do risco iminente de corte de salários e descontos dos dias parados.
A assembleia ocorreu de forma presencial em Juiz de Fora, com a participação de 169 pessoas, e remotamente para as trabalhadoras e os trabalhadores de Governador Valadares e para as representantes da categoria que estavam em Brasília participando do Comando Nacional de Greve (CNG). Ao todo, cerca de 80 pessoas acompanharam a atividade online.
A proposta de encerramento da greve foi aprovada após amplo debate. Na votação presencial, a deliberação foi unânime. Entre os participantes que acompanharam a assembleia remotamente, foram registradas três abstenções e um voto contrário.
Com isso, o retorno oficial às atividades ocorrerá na próxima segunda-feira (22), às 6h. No Hospital Universitário (HU), os servidores plantonistas retomaram suas atividades já nesta sexta-feira (19), às 18h, conforme acordo construído durante audiência judicial realizada na quarta-feira (17).
A assembleia teve como pauta única a avaliação do cenário após a segunda audiência de conciliação da Ação Civil Pública (ACP) movida pelo Ministério Público Federal (MPF).
Reunião com trabalhadores do HU antecedeu decisão


Antes da assembleia, o SINTUFEJUF realizou, na manhã de quinta-feira (18), uma reunião com as trabalhadoras e os trabalhadores do Hospital Universitário para apresentar os desdobramentos da audiência judicial e os motivos que levaram o Comando Local de Greve (CLG) a defender a retomada das atividades.
Deste modo, o comando avaliou ser necessário orientar o retorno ao trabalho para evitar prejuízos ainda maiores à categoria.

Entre os riscos apontados estavam o corte imediato dos salários e a imposição de descontos referentes aos dias parados. O entendimento foi reforçado após a audiência realizada no dia 17. O acordo construído durante a audiência estabeleceu o retorno dos trabalhadores do HU a partir das 18h de sexta-feira, 19, buscando preservar os direitos da categoria.
Durante a assembleia, o coordenador-geral do SINTUFEJUF, Carlos Augusto Martins, relatou que a principal preocupação do CLG passou a ser proteger a categoria dos riscos concretos que estavam colocados, especialmente a possibilidade de corte de salários e descontos dos dias parados.
“A estratégia construída pelo comando foi buscar uma saída que preservasse a categoria. Conseguimos negociar prazo para o retorno do Hospital Universitário e entendemos que encerrar a greve era a medida mais segura para evitar danos ainda maiores aos trabalhadores”, afirmou.
Judicialização ultrapassou a realidade da greve

O coordenador jurídico da FASUBRA, Flávio Sereno, que acompanhou as audiências ao lado do comando de greve, ressaltou que a judicialização não parece ter ocorrido em razão do perfil da mobilização em Juiz de Fora, mas sim de uma interpretação restritiva do direito de greve adotada pelo Ministério Público Federal.
Segundo ele, universidades com realidades muito distintas, como Lavras e Viçosa, também foram alvo de ações semelhantes.
“A judicialização não aconteceu porque a nossa greve teve determinada característica. O MPF ingressou com ações em diferentes universidades que vivem realidades distintas. Ficou muito claro para nós que havia uma interpretação de que trabalhadores da área da saúde não poderiam exercer o direito de greve”, avaliou.
Flávio alertou ainda que a principal preocupação passou a ser a possibilidade de uma decisão liminar determinando o corte dos salários da categoria.
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Categoria preserva força para os próximos enfrentamentos

O coordenador de Aposentados e Pensionistas do SINTUFEJUF, Rogério Silva, afirmou que a decisão pelo encerramento da greve foi tomada de forma responsável, diante do cenário apresentado na audiência.
Rogério também destacou a importância dos servidores do Regime Jurídico Único (RJU) para o funcionamento do Hospital Universitário.
“Ficou evidente a importância desses trabalhadores para o HU. Mesmo sendo um contingente muito menor que o número de empregados da EBSERH, foi reconhecido que a ausência dos RJUs impactava diretamente o funcionamento do hospital”, afirmou.
Lições para as próximas mobilizações
Representando o Comando Local de Greve, Adilson Zaniratto avaliou que a discussão sobre a chamada “essencialidade” dos serviços marcará profundamente as futuras mobilizações da categoria.
“A palavra desta greve foi essencialidade. Isso vai mudar a forma como teremos de organizar os próximos movimentos. Não apenas nós, mas também outras categorias da universidade precisarão refletir sobre isso”, afirmou.
Adilson ressaltou que a proposta de encerramento não surgiu de forma precipitada, mas como resultado de uma análise cuidadosa dos riscos apresentados durante a audiência judicial.
“Nós tentamos construir alternativas que permitissem a continuidade da greve sem colocar a categoria em risco. Quando ficou claro o cenário que se desenhava, tivemos que agir com responsabilidade”, disse.

A coordenadora de Comunicação substituta do SINTUFEJUF, Cleide Spindola, fez uma reflexão sobre o processo vivido pela categoria ao longo dos quatro meses de greve.
Segundo ela, apesar do encerramento do movimento, a mobilização deixa importantes aprendizados e fortalece a organização dos trabalhadores.
“A gente está voltando, mas não está vencido. Não estamos recuando por medo. Estamos fazendo uma parada estratégica para seguir na luta. Saímos dessa greve com mais consciência, mais indignação e mais organização para os próximos enfrentamentos”, afirmou.
Cleide também criticou a postura adotada pela administração superior da universidade durante o movimento e defendeu que a categoria permaneça mobilizada para garantir o avanço das pautas locais.
“Ficou muito evidente para a categoria quem esteve ao nosso lado e quem não esteve. Essa experiência fortalece nossa disposição de continuar lutando pelos direitos dos trabalhadores”, destacou.
Greve deixa legado de organização e resistência

Ao longo de 120 dias, a greve das técnicas e dos técnicos-administrativos da UFJF garantiu ampla participação da categoria, mobilizações permanentes, fortalecimento da organização sindical e avanços importantes para os trabalhadores.
Durante a assembleia, diversas falas destacaram que o encerramento do movimento não representa uma derrota, mas uma decisão estratégica diante da conjuntura judicial apresentada. O entendimento predominante foi de que a preservação dos salários e a continuidade da organização política da categoria eram fundamentais para os próximos enfrentamentos.
Após a decisão, foi protocolado um ofício na reitoria comunicando sobre o encerramento da greve.
O coordenador-geral do SINTUFEJUF, Carlos Augusto informou que seguirá acompanhando os desdobramentos judiciais, as negociações com a Reitoria e o cumprimento dos compromissos assumidos durante o processo de greve.
Também foi aprovada a realização de uma assembleia de balanço do movimento, quando serão debatidos os avanços, os desafios e as perspectivas para a continuidade da luta da categoria.
Homenagem a Silvestre dos Santos



A assembleia também foi marcada por um momento de emoção e reconhecimento à trajetória de luta do ex-coordenador do SINTUFEJUF, Silvestre dos Santos, falecido no último dia 16 de junho.
Antes do início dos debates, foi realizado um minuto de silêncio em memória de Silvestre e da companheira Valéria, além da exibição de um vídeo em homenagem ao ex-dirigente sindical.
Silvestre dedicou grande parte de sua vida à organização da categoria e à defesa dos direitos das técnicas e dos técnicos-administrativos da UFJF. Ao longo de sua trajetória, ocupou diferentes funções na direção do sindicato, deixando como legado o compromisso com a luta coletiva, a formação sindical e a construção de um serviço público de qualidade.
Sua memória foi reverenciada pelos presentes como exemplo de militância, solidariedade e dedicação ao movimento sindical.







































