
Por trás das rotinas que sustentam o funcionamento da universidade pública, existem trajetórias criativas que muitas vezes permanecem invisibilizadas. Na Faculdade de Educação Física e Desportos (FAEFID) da Universidade Federal de Juiz de Fora, uma dessas trajetórias ganha forma por meio da literatura. Técnico-administrativo da UFJF, Sérgio Soares construiu, ao longo de décadas, um percurso marcado por uma escrita sensível, atenta às dores, contradições e dilemas do cotidiano, e agora busca o apoio coletivo para que seu novo livro chegue aos leitores.
A literatura entrou em sua vida há cerca de 30 anos, inicialmente como recomendação terapêutica. “No começo, os textos ficavam guardados no computador. Nunca fiz manuscritos”, conta. Com o tempo, esses escritos migraram para a nuvem, reunidos em um blog que funcionava mais como repositório do que como vitrine pública. Foram anos de produção silenciosa até que, em 2024, esse acervo começou a ganhar forma editorial com o lançamento do livro Dias Possíveis. A partir dele, vieram participações em dezenas de coletâneas literárias nacionais, culminando no atual projeto: O anjo torto e outras pequenas torturas, em fase de pré-venda.
Formado em Língua Portuguesa e Literaturas Brasileira e Portuguesa pela UFJF, mestre em Literatura e membro da Academia de Letras de Teófilo Otoni (MG), Sérgio vê sua formação acadêmica como um complemento importante, mas não determinante. “Foi um bônus, na construção de minhas histórias, não por menos, me defino como um professor que conta histórias”, afirma. Sua escrita se caracteriza pelo realismo, pela recusa ao óbvio e pela fidelidade ao que observa no mundo, sempre com a preocupação de comunicar-se com clareza e profundidade com o leitor.
O anjo torto e outras pequenas torturas reúne contos curtos e aforismos que dialogam com a estética da literatura contemporânea, sem abrir mão do conteúdo. As narrativas abordam temas como trabalho, solidão, machismo, racismo, sexualidade, violência e as tensões da vida em um mundo hiperconectado, mas emocionalmente fragmentado. São histórias que não buscam suavizar a realidade, mas apresentá-la com honestidade, convidando o leitor à identificação e à reflexão. “Não escrevo Contos de Fadas, nem tampouco falo sobre autoajuda. Falo sobre temas que percorrem nosso cotidiano e desafio um leitor meu que não tenha vivido ou presenciado alguma das situações narradas no livro. Penso que isso atrai as pessoas, a verdade nua e crua, sem maquiagem e metáforas”, resume.
Apesar de sua produção literária já ter alcançado espaços importantes, como lançamentos e participações na Bienal do Livro do Rio e na FLIP, em Paraty, em 2025, além de presença confirmada na Bienal de São Paulo e em grandes coletâneas nacionais em 2026, o autor reconhece que esse percurso ainda é pouco conhecido dentro da própria universidade. Para Sérgio, isso reflete uma visão restrita sobre o papel dos técnico-administrativos na produção cultural e intelectual, frequentemente vistos apenas pela lente das funções administrativas. “Parece persistir uma cultura perversa que enxerga o técnico-administrativo apenas como mão de obra braçal, sem conteúdo ou capacidade de produzir algo intelectual”, avalia. O contraste é revelador: enquanto seus textos circulam em alguns dos mais importantes eventos literários do país, essa produção segue desconhecida por grande parte da comunidade universitária, inclusive entre seus próprios colegas. Uma realidade que expõe não a falta de talento, mas a falta de reconhecimento institucional da diversidade de saberes que compõem a universidade pública.
Foi a partir da necessidade de criar espaços próprios de circulação que nasceu a Casa de Contos Oficial, projeto virtual criado inicialmente para reunir seus textos completos e que hoje se propõe a acolher também outros autores. Um espaço de partilha e visibilidade para a literatura produzida fora dos grandes circuitos editoriais, construído a partir da experiência de quem conhece, na prática, os limites e desafios enfrentados por autores independentes.
O novo livro está sendo viabilizado por meio de financiamento coletivo, estratégia cada vez mais comum entre editoras independentes e escritores contemporâneos. A pré-venda é fundamental para custear os processos editoriais e garantir a primeira tiragem da obra. “O apoio dos leitores é o que define se o livro acontece ou não”, afirma Sérgio.
Nesse sentido, o apoio dos colegas técnico-administrativos, da comunidade universitária e de leitores em geral torna-se essencial. Iniciativas como esta vêm sendo divulgadas pelo SINTUFEJUF, que abre espaço para dar visibilidade à produção cultural de servidores da UFJF, contribuindo para o reconhecimento dos talentos que existem para além das rotinas administrativas. Deste modo, iniciativas de divulgação como esta ajudam a ampliar o olhar sobre os técnico-administrativos, reconhecendo-os também como produtores de conhecimento, cultura e pensamento crítico.
O convite está aberto. Para quem ainda não conhece o trabalho de Sérgio Soares, basta a curiosidade e a disposição para se deixar atravessar por histórias sensíveis, humanas e profundamente atuais. Para os colegas, fica o chamado ao apoio e ao incentivo. Porque quando um técnico-administrativo publica um livro, toda a categoria amplia sua voz.
Os interessados podem apoiar o projeto e adquirir o livro pelo link:
https://benfeitoria.com/projeto/pre-venda-do-livro-o-anjo-torto-sergio-soares-23qg